“Degustação de taças”: A mudança interfere? - Folha de Alphaville
01/11/2018
COLUNISTAS
“Degustação de taças”: A mudança interfere?
Tenho respondido muito frequentemente à mesma pergunta dos apreciadores de vinhos: a questão da taça. Existe mesmo diferença entre as taças?
Colunista da Folha de Alphaville

Qual é a ideal para cada tipo de vinho?

Você pode até não saber (e a maioria não sabe mesmo, ok?), mas escolher a taça certa para cada tipo de vinho é uma tarefa importante e, nem sempre, tão fácil. Não que isso deva ser um impedimento para você tomar o seu vinho ou começar a entrar nesse universo tão amplo e gostoso.

Assim como há uma enorme diversidade de vinhos no mundo, existe uma variedade significante de taças no mercado. A escolha para um vinho específico não é apenas uma questão de etiqueta ou convenção – se feita de maneira correta, ela irá realçar as principais características da bebida (e isso é fato consumado!) - cor, aroma, sabor: tudo isso se torna mais vivo, aguçando ainda mais os sentidos dos apreciadores da bebida dos deuses.

Com os avanços tecnológicos e os estudos científicos na área, descobriu-se que, não somente o formato, como também o material com que cada taça é fabricada, influencia na percepção do vinho. Sabores específicos (doce, salgado, amargo, etc.) são sentidos por papilas gustativas de diferentes localizações no mapa da nossa língua. Assim, especialistas baseiam as confecções das taças de modo a fazer com que seu formato conduza o vinho ao lugar exato na boca onde suas características principais, como acidez, doçura e sabores, serão melhor apreciadas.

Mapa da língua indicando áreas sensoriais dos gostos.

Outros fatores são importantes para potencializar as qualidades da bebida na sua apreciação. Para não alterar a temperatura ideal de serviço do vinho, por exemplo, é necessário que a taça tenha hastes longas, para que se possa segurá-la sem que haja o contato com o bojo. Falando nele, quanto mais aberto, mais realça os aromas. No caso dos espumantes, o formato longo favorece a visualização de sua perlage e a apreciação de seus aromas que são levados às extremidades com a ajuda das borbulhas.

Há uma taça “curinga” no mercado, feita com padrão internacional (ISO) para degustações técnicas, serve para apreciar todo tipo de vinho.
Não é necessário que se tenha uma centena de taças diferentes para poder apreciar um bom vinho.

A única coisa que você não pode fazer é comprar taça colorida para beber vinho. O resto pode tudo! As decoradoras vão me matar, principalmente aquele pessoal que arruma mesa de festa. Mas a verdade é que vinho tem de ser servido em taças transparentes e por várias razões. Mas eu vou me deter a apenas à mais importante: O vinho tem de ser visto! Se ele é tinto, você precisa ver a cor, isso te chama atenção e, principalmente, se tiver algum problema nele, seja rolha que caiu na taça, seja borra demais no fundo, você vai ver e vai poder substituí-lo.

No vinho branco, a mesma coisa. Na taça transparente você vai ver na hora se ele estiver estragado, porque vinho branco é de cor palha, limão, dourado, na maioria das vezes. Se parecer suco de limão está estragado e na taça escura você não percebe isso.

Dito isto, é possível possuir uma variedade pequena de taças em casa e ainda assim experimentar diversos tipos de vinhos. O ideal para apreciadores é ter 4 tipos básicos para que não se tenha grandes prejuízos na degustação dos diferentes vinhos existentes no mercado: duas com modelos grandes para tipos diferentes de tintos (Bordeaux e Borgonha), uma taça com tamanho médio para brancos e uma estreita e alta para espumantes.

Taça Bordeaux - Taça grande feita para beber vinhos mais encorpados e com taninos mais acentuados. Com bojo largo, alongado e boca fechada para concentrar os aromas, evitando sua dispersão. Indicada para apreciar vinhos das uvas Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Syrah, Tannat, entre outras.

Taça Borgonha - Taça arredondada, em formato balão, feita para vinhos concentrados e com menos taninos. Com bojo e boca largos, estimula a apreciação das qualidades mais arredondadas e maduras da bebida. Indicada para vinhos Pinot Noir, Barbera Barricato, Amarone, Nebbiolo, entre outras.

Taça para vinhos brancos - Taça de corpo médio feita para consumir vinhos em baixa temperatura. Com aba estreita, distribui o vinho de forma uniforme em todas as partes da língua, enfatizando seu frescor, doçura e acidez de maneira equilibrada.

Taça para espumantes - Taça fina com bojo alto e boca estreita (flute). Mantém as borbulhas por mais tempo, realça e direciona os aromas para o nariz, potencializando sua delicadeza e frescor.

Desafio você leitor a fazer uma degustação de taças para comprovar esta realidade. Isto mesmo! Uma degustação de taças! O uso de uma taça adequada faz uma diferença danada nos aromas e sabores que vêm do vinho assim como uma boa chuteira ou uma boa raquete podem ajudar seu jogo caso, obviamente, você tenha um mínimo de qualidade nessas artes. Colocar um vinho de péssima qualidade numa taça de cristal não ajudará o vinho (é vinho?!) que seguirá sendo qualidade ruim, da mesma forma que se você for um perna de pau no jogo, pode comprar a chuteira do Neymar que nada mudará.

Sempre que tenho a oportunidade, deixo claro a importância de desmistificar o mundo do vinho que pode e deve se tornar, de forma parcimoniosa, uma constante na sua vida pois enriquece as refeições, faz bem à saúde e gera alegria de viver. Agora, dá para tomar vinho em copo de plástico? Poder pode, mas não se deve, todavia nem sempre podemos caçar com cão e muitas vezes nem dá, então cace-se com o que haja à mão, simples assim!

Agora, para tomar grandes vinhos e aproveitar tudo aquilo que ele tenha para te entregar, aí uma boa taça é sim essencial.

Recentemente, de férias e totalmente de improviso, quis abrir uma garrafa de vinho na praia, porém sequer um copo de vidro tinha à mão. Por isso não saciaria a vontade?? Não meu amigo, nada de frescuras nesses momentos, viva o momento e seja feliz, fui de plástico! Esse é meu recado para os amigos leitores da coluna, não deixem pequenos senões atrapalhar seu “momento”, viva, seja feliz! Óbvio que nas condições ideais (para tudo na vida) seria melhor, porém alguns dos melhores momentos de minha vida não foram vividos com taças de cristal de primeira linha e certamente outros também não o serão, porém se na companhia certa, se tornarão inesquecíveis, então esqueça as regras, relaxe e aproveite sem frescuras!




Luciana Zarif tem formação jurídica e é sommelière há 10 anos na área do vinho. É também especialista e consultora e atualmente trabalha na V&A Vinhos e  azeites.

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