Vendo – ou seria bebendo? – o tempo passar - Folha de Alphaville
21/09/2018
COLUNISTAS
Vendo – ou seria bebendo? – o tempo passar
Uma degustação vertical é como sentir a passagem do tempo na ponta da língua  
Colunista da Folha de Alphaville

Sempre existe aquele momento em que coisas novas rogam por serem descobertas e cutucam como alfinetadas de curiosidade para saber se de fato tudo evolui e melhora com o tempo. Para isso, escolher a atmosfera mais acolhedora, o ambiente mais neutro, refinado ou simples, discreto ou badalado, pouco importa, o que realmente vale é estar disposto a esta experiência que amolece até o mais duro dos homens.

Estamos falando de um formato de degustação que se constitui em pelo menos duas ou mais garrafas de um mesmo vinho, de um mesmo produtor, de safras (ano de colheita) diferentes.

Sim, é preciso dessas premissas para se ter uma degustação vertical.

Chegou o momento: abrem-se as garrafas. Dependendo de suas datas de colheita, a melhor ferramenta é uma pinça para tirar a rolha – que corre um grande risco de estar com os dias contados, mostrando a que veio: protegendo o vinho, dosando com cuidado a troca de oxigênio.

Depois, cuidadosamente, despeja-se o conteúdo nas taças. Estas, para uma pessoa organizada, bastam estar em linha, correspondendo cada qual com as datas dos vinhos em ordem crescente da esquerda para direita. Se for o caso, utilize- se de uma caneta marca texto para as garrafas e taças, numerando-as de acordo com a sequência, ou então use pequenos adesivos redondos coloridos para a distinção dos vinhos. Será preciso ter o mesmo número de taças que o de garrafas para que se possa fazer a comparação – a parte mais legal de toda essa grande confusão.

Por onde começar? Há quem prefira começar pelos mais jovens, colheitas mais recentes, (minha preferência também). Mas também pode-se começar pelos mais velhos, safras mais antigas. O importante é que se siga uma ordem, crescente ou decrescente.

Depois de tudo acertado, com as garrafas meio cheias, as taças meio vazias e os dedos todos manchados de tinta de caneta, começa o grande passeio nessa montanha russa de datas e épocas distintas.

Essas degustações existem para que se possa comparar o estilo dos enólogos que passaram pelas vinhas e, obviamente, entender o que aconteceu ao longo dos anos – cada qual com suas características climáticas, envolvendo incidência solar, índice pluviométrico, dias de frio e de calor etc, e eventualmente também perceber seus cortes, se os vinhos forem feitos com mais de um tipo de uva. Eles sempre mudam.

O mais interessante disso tudo é acompanhar a evolução, a integração dos elementos como álcool, tanino e acidez, os aromas, notando se melhoraram ou pioraram com a influência implacável do tempo.

A experiência é como conversar com uma mesma pessoa, em décadas distintas, e perguntar as mesmas questões. As respostas serão distintas. É mais ou menos isso o que se vai fazer com os vinhos em uma degustação vertical.

Fica a dúvida: seria o vinho um elemento vivo sábio?

Uma experiência magnífica! Você irá beber uma época “engarrafada” em forma de líquido por alguém que já pode até ter morrido em uma data que você ainda nem tinha nascido. Uma experiência sem igual!




Luciana Zarif tem formação jurídica e é sommelière há 10 anos na área do vinho. É também especialista e consultora e atualmente trabalha na V&A Vinhos e  azeites.

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