08/02/2018
ECONOMIA
Pede de volta
Colunista da Folha de Alphaville

O presidente partiu para a viagem. Ia participar das negociações de paz que puseram fim ao genocídio conhecido mundialmente como Primeira Grande Guerra. Os estrategistas usaram e abusaram da tecnologia para matar mais gente por um custo de morte mais em conta. Por isso espalharam gás de mostarda nas trincheiras. Soldados morreram como moscas.

Com o final da matança irracional, cabia aos líderes a assinatura de tratados de paz para impedir que a humanidade caísse novamente em uma catástrofe como aquela. Sonho meu.... Woodrow Wilson, presidente americano se apresentou em Paris para as negociações. Sua proposta de paz, os 14 pontos, era ridicularizada.

Diziam as matracas, para organizar o mundo Deus precisou só de dez mandamento, Wilson inventou 14. Ele ficou na França por seis meses. Participou ativamente da assinatura de tratados, entre eles o de Versalhes. Foi ele quem propôs a fundação da Liga das Nações, o pré-projeto da ONU. 

E quem governou os Estados Unidos durante esse longo período? Ele. Mesmo sem a internet o presidente governou e não passou o poder para o vice. Trump fez o mesmo no Fórum Econômico em Davos.

O avião presidencial foi impedido de pousar. A pista não era suficiente para o “Sucatão “, um velho Boeing da antiga Varig . Teve que pousar em Fortaleza. De lá a comitiva de 63 pessoas partiu de carro e avião particular para Mombaça a terra natal do presidente. Paes de Andrade era o presidente.

O titular José Ribamar, conhecido pela alcunha de José Sarney, que tinha viajado para o Japão. Na ausência de um vice, assumiu o presidente da câmara. No dia 24 de fevereiro, as 4 da manhã, de 1989, a furiosa começou a ensaiar o hino nacional para saudar o presidente em exercício. Durante um dia Mombaça se transformou na capital do Brasil.

Passar o cargo para o vice ou para o próximo na linha de sucessão se tornou um acontecimento inusitado. Mesmo sem estar escrito na constituição que isso tem que ocorrer, ninguém perde essa oportunidade de passar para a história, com direito a foto com a faixa presidencial, e um monte de compinchas amontoados atrás de sua excelência. Tudo pago com o dinheiro do digníssimo contribuinte.

A maldição, ou melhor, a tradição continua. Claro que não vai haver transmissão de poder se o presidente de plantão dar um pulinho no Mercosul. Mas se for a Davos na Suíça, são outros 500. Temer, para escapar da má avaliação do seu governo e de sua figura, tocou com comitiva para a Europa. Agora sim era necessário assumir um vice. Imagine se ele toma um porre e resolver ficar por lá. Mentirinha.

O vice é novamente o presidente da câmara, o deputado Rodrigo Maia, carinhosamente chamado de Bolinha, e perigosamente de Botafogo na lista da Odebrecht. O que fazer para entrar para a história? Maia fez uma doação, não do seu bolso, é claro. Mandou R$800.000,00 do nosso bolso para ajudar na restauração da Basílica da Natividade, em Belém, Israel.

Além da inusitada troca de comando do país em cada viagem presidencial, o cidadão é obrigado a esquecer que o Brasil é um país laico e o dinheiro público não deve e não pode auxiliar uma religião, seja ela qual for. Ainda bem que há em andamento uma ação popular para que ele devolva o nosso dinheiro do próprio bolso. Ou pede de volta o que deu.




Heródoto Barbeiro é jornalista, âncora do Jornal da Record News. Autor de vários livros na área de treinamento, história, jornalismo e budismo.