E lá se foi Paulinho - Folha de Alphaville
26/04/2018
COLUNISTAS
E lá se foi Paulinho
Colunista da Folha de Alphaville

Não é novidade que o Brasil vê seus maiores talentos no futebol deixarem o país cada vez mais cedo. Mal um grande jogador surge e já se projeta a ida dele para o exterior. Ida essa, o que é pior, muitas vezes, estimulada pelos dirigentes do próprio clube que o revelou, interessados nos dólares ou euros que virão em troca. Isso é muito triste. 

Há quem defenda uma lei que proíba o atleta de se transferir antes de uma determinada idade. Toda vez que alguém como Paulinho, que tem apenas 17 anos, deixa um clube do tamanho do Vasco da Gama tão cedo, essa discussão volta à baila. Mas ela é totalmente inútil.

No mundo de hoje impera a ampla liberdade de escolha do profissional trabalhar aonde quiser. Nem os organismos internacionais que regulam o trabalho muito menos a FIFA aceitariam qualquer restrição a essa liberdade. E o jogador que quisesse partir antes da idade que a hipotética lei estabeleceria conseguiria facilmente uma medida judicial autorizando a transação.

O que fazer então? Não há outro caminho senão mudar a mentalidade do dirigente brasileiro. É inevitável que nossas grandes revelações tenham a Europa como destino. Mas não precisa ser tão cedo. Alexandre Pato, por exemplo, deixou o Internacional sem jamais ter disputado um Grenal, o jogo mais importante que envolve os clubes gaúchos. Gabriel Jesus nem havia desabrochado e já largou o Palmeiras. Phillippe Coutinho nem jogou no time principal do Vasco e já estava na Europa. E por aí vai.

O exemplo Neymar vale nessa hora. Todos sabiam que ele iria para a Europa. Mas, antes disso, Neymar deu títulos ao Santos e à Seleção Brasileira. Fez crescer o número de torcedores santistas. Poderia ter ficado um pouquinho mais, é verdade. Mas, ao menos, cumpriu um papel antes de bater asas.

Não adianta dizerem que o Vasco não tem dinheiro e precisa vender o jogador. Vai continuar sem dinheiro. Como todos os clubes brasileiros sempre estão sem dinheiro mesmo vendendo tanto. A questão não é essa. Nossos clubes precisam melhorar a gestão. Assim poderão viver cada vez mais da venda dos espetáculos que proporcionam e segurar um pouco mais os talentos por aqui. E precisam elaborar planos de carreira para as suas principais revelações, sempre preservando os interesses do torcedor, razão principal da existência de tudo o que gira em torno do nosso esporte mais popular.




Jornalista e administrador esportivo. Trabalhou nos principais veículos de comunicação do país, foi gerente de futebol do Grêmio Barueri e secretário de esporte da cidade. Atualmente é âncora e comentarista da Rádio Transamérica.