08/02/2018
COLUNISTAS
O Fim dos Limites
Colunista da Folha de Alphaville

Antes da invenção da luz elétrica o cair da tarde impunha uma série de limitações. A iluminação por velas ou mesmo por lampiões a gás (que representavam a melhor tecnologia da época) era insuficiente para trabalhar ou mesmo ler com conforto. A eletricidade mudou tudo isso e ainda permitiu a criação de uma série de aparelhos libertadores do corpo, como máquinas de lavar, chuveiros, aspiradores de pó e ferros de passar, bem como toda uma família de equipamentos que libertaram a alma, tais como os fonógrafos, o rádio, o cinematógrafo e a televisão.

A descoberta dos processadores (chips) permitiu que as informações em código fossem sistematizadas mais rapidamente. Hoje, a tecnologia digital nos permite realizar instantaneamente e com uns poucos toques as façanhas de superar tempo e espaço. E o melhor: a um custo cada vez menor e mais acessível.

No passado, ter nascido em um lugar afastado praticamente determinava o destino das pessoas. Hoje é a falta de acesso a um computador, celular ou smartphone que pode atrapalhar a chance de alguém prosperar na vida, já que esses equipamentos permitem que qualquer mortal tenha “poderes” antes reservados apenas aos deuses. Basta ter um celular ou estar online para que o indivíduo possa entrar em contato com gente de qualquer lugar superando distâncias físicas antes intransponíveis, ter acesso a todo tipo de conhecimento com uns poucos toques e a chance de ter um espaço virtual com escala teoricamente mundial em que é o absoluto senhor da sua expressão.

Ao derrubar limitações antes intransponíveis, a ubiquidade do acesso à tecnologia digital cria uma situação inédita na História em termos de empoderamento do indivíduo porque ao longo de milênios a tecnologia era acessível a poucos privilegiados e imediatamente os afastava da maioria, colocando-os em posição de dominação.

Isso está claramente contado nos livros de história. Com instrumentos, os nossos ancestrais conseguiam caçar com mais eficiência e as proteínas passaram a fluir melhor, o que deu mais força física para caçar presas ainda maiores e mais nutritivas. A conquista do fogo também ajudou. Os alimentos cozidos eram mais fáceis de digerir e davam mais energia. A tecnologia de deixar o cozimento fazer metade do trabalho teve um efeito importante porque gerou energia extra, que foi direcionada para o cérebro e permitiu seu melhor desenvolvimento. Mas, fazer fogo toda hora dá um trabalhão e carregar brasas não é lá muito prático na vida nômade. Entre o fogo e a estrada, o primeiro venceu e a espécie ganhou endereço fixo.

Sem precisar mudar o tempo todo, houve mais espaço para criar e daí surgiram outros instrumentos e a tecnologia de cultivo. Os humanos saíram da caça e coleta e entraram na era da agricultura. A invenção do arado mudou tudo, deu escala para a produção. Quem inventava melhores instrumentos e era mais capaz de perceber como o ambiente se comportava, conseguia obter maior produtividade e, consequentemente, ganhava poder.

Assim surgiram as grandes civilizações na Mesopotâmia e no Egito e a sistematização de conhecimento foi rapidamente reconhecida como fonte de poder. Por isso, a grande maioria das pessoas foi deliberadamente deixada na ignorância. O raciocínio era simples: “se todos puderem pensar e criar, quem vai fazer o trabalho braçal? “

Como informação é o combustível para a criatividade, por milênios era escassamente distribuída. Só se passava a informação na justa medida da necessidade do receptor. Os trabalhadores eram treinados a fazer coisas e impedidos de saber as razões científicas que as determinavam. Em várias sociedades, o saber adquiria uma aura mística e se tornava exclusividade dos sacerdotes, curandeiros e oráculos.




Walter Longo é sócio-diretor da Unimark-Comunicação e ex-presidente do grupo Abril redacao@folhadealphaville.com.br