29/10/2009 23:53
Ricardo Viveiros
Fica muito triste a vida quando não se dá valor à morte. Sim, isso mesmo, valor à morte. Porque, mais ou menos, todos dão alguma importância à vida, embora, como fazemos com a grande maioria dos eletroeletrônicos que temos em casa, não saibamos usar nem 30% do que ela nos oferece de felicidade.
Quem não dá valor à morte, não sabe como é bom viver - mesmo que sejam muitos e complicados os problemas do seu dia a dia. Há quem enfrente, de uma só vez, a falta de saúde, educação, moradia, cultura e, principalmente, do que lhe possa dar a mínima dignidade para obter tudo isso, mesmo que um pouquinho só de cada: o trabalho.
E assim mesmo, parte integrante dos "sem", são muitas as pessoas que ainda têm esperança e lutam para conquistar seu lugar ao sol, nem que seja sob um tímido raio que se esgueira entre as sombras do sofrimento. Essas pessoas, nobres de alma e cheias de boa vontade, fogem das oportunidades de renda fácil, corrupção e maldade, que insistem em lhes oferecer chances em cada esquina da vida.
Você tem ideia do que é o trabalho de um pedreiro, um médico cirurgião, um gari, um engenheiro de trânsito, um motorista de ônibus urbano, um corretor de valores, um policial, um professor? São atividades que exigem excessivamente, colocam as pessoas sob constante pressão e, nem sempre, principalmente nos casos de gente abnegada, correspondem nos ganhos materiais.
No entanto, quem opta por uma delas - e por muitas outras aqui não mencionadas -, sabe que será preciso amor, dedicação e um compromisso ético inalienável no exercício pessoal e profissional de cada uma dessas atividades. Que não poderá jamais ter a sua consciência cooptada por qualquer espécie de sedução. Que trabalha como quem acredita em alguma coisa além da vida, com fé na recompensa da alma.
Não estou falando de valor à morte por estarmos às vésperas de um dia de Finados. Estou falando de trabalho e alegria de viver. Até porque, no meu entender, trabalho é vida, não morte. Nesse sentido, já que existe o Dia de Finados e o Dia do Trabalho, o que falta mesmo é o Dia do Trabalhador. Esse sim, carente de tudo, a começar de emprego e renda para ter seu amor-próprio valorizado e ser feliz, distanciar-se da morte. O ser humano não quer esmolas de seus semelhantes, não quer bolsa, isso ou aquilo; quer direito à honra de trabalhar e ganhar de acordo com o seu talento e empenho pessoal. E crescer na vida por seus próprios méritos.
Neste ano que está terminando, todos nós vivenciamos de perto várias tragédias individuais que se tornaram coletivas, como por exemplo, a morte da menina Isabella. Este específico caso, embora o índice de assassinatos de crianças no Brasil atinja números alarmantes (e mesmo que fosse uma só por toda a vida já seria triste), ganhou as páginas e os microfones da mídia impressa e eletrônica, estabelecendo comoção e, até mesmo, gerando outros sentimentos menores. São muitos os profissionais envolvidos nessa história que se arrasta, até agora, sem solução concreta. E trabalham com firmeza, vigiados e cobrados pela sociedade, ainda perplexa com o acontecido.
O caso da menina Isabella, símbolo de outros tantos pequenos seres trucidados pelo ódio - sem prejulgar a culpa, confiando-se no trabalho das autoridades responsáveis, com ou sem "pirotecnia", como denominou o presidente Lula -, é uma prova inconteste de absoluta falta de respeito à morte. Se quem destrói o futuro e tira o direito à vida tivesse o mínimo respeito à morte e ao que ela representa de importância, Isabella não teria se tornado uma vítima do desamor. Outra mais, entre tantas e, pior, algumas delas vítimas de abusos sexuais, que seguem vivas, sofrendo e lutando por justiça.
É bastante difícil morrer, é preciso ter muita coragem. A morte é séria, cruel e definitiva. A vida é bela, divertida e temporária...